terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Eu quero é mais!


Quero tudo novo de novo. 
Quero não sentir medo.
Quero me entregar mais, me jogar mais, amar mais.
Viajar até cansar. Quero sair pelo mundo. Quero fins de semana de praia. 
Aproveitar os amigos e abraçá-los mais. 
Quero ver mais filmes e comer mais pipoca, ler mais. Sair mais.
Quero um trabalho novo. Quero não me atrasar tanto, nem me preocupar tanto.
Quero morar sozinha, quero ter momentos de paz. Quero dançar mais.
Comer mais brigadeiro de panela, acordar mais cedo e economizar mais.
Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais.
Pensar mais e pensar menos.
Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. 
Quero ser feliz, quero sossego, quero outra tatuagem.
Quero me olhar mais. Cortar mais os cabelos.
Tomar mais sol e mais banho de chuva.
Preciso me concentrar mais, delirar mais.
Não quero esperar mais, quero fazer mais, suar mais, cantar mais e mais.
Quero conhecer mais pessoas. Quero olhar para frente e só o necessário para trás.
Quero olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa.
Quero pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Quero mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Quero aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais.
Quero menos “mas”. Quero não sentir tanta saudade.
Quero mais e tudo o mais.
“E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha".

Fernando Pessoa

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Confissão de Natal




Senhor, tão absorvida estive em cuidar daqueles que me entregaste, que me esqueci de preparar o Teu presente de aniversário. Agora aqui estou, as mãos vazias, calosidades e manchas, indeléveis algumas. O sofrimento dos que colocaste em meu caminho atingiram-me, marcaram-me, fizeram-me sofrer. Dei-lhes meu tempo, minha força, meus bens e meu amor.

Mas agora, Senhor, quando o mundo Te vê pequeno e dependente no presépio de Belém, sinto também um grande desejo de trazer-Te um presente. Sinto-me como no tempo de criança, quando mamãe e papai faziam anos: triste e alegre. Alegre por ser dia de festa, triste porque nada possuía além de algumas moedas de metal no pequeno cofre de madeira, e, então, eu não podia transformar em algo concreto o meu amor.

E agora, no Teu dia, Senhor, nem mesmo resta o velho cofre. Apenas esta vontade de Te agradar, de dizer Te amo, de pedir perdão pelas mãos vazias. 

Se ao menos pudesse trazer-Te todos os sorrisos que vi nascer; todas as lágrimas que desapareceram de rostos cansados porque ouviram falar de Ti; todas as flores que recebi porque estava executando uma ordem Tua...

Mas não. Estas pequenas preciosidades transformaram-se em saudade e gratidão. E sentimentos não podem ser traduzidos em caixa de presente, amarrada em cordões coloridos.

Por isso é que, no Teu dia de festa, duas mãos cansadas se erguem para pedir que se encha de novas bênçãos e que lhes dês novas oportunidades de servir, pois que, nada tendo para oferecer-Te, quero sair outra vez proclamando Teu poder e Tua bondade.

Quero ser aquela que leva o recado, que executa tarefas humildes que procura retribuir com trabalho servil a bênção de ser admitida entre aqueles que servem a um Deus. 

 Myrtes Mathias

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Confusão



Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança
vivem na casa do Presente, quando deviam estar 
- como seria lógico - uma na casa do Passado 
e a outra na casa do Futuro.

- Mas e o Presente, seu moço?

-Ah, esse nunca está em casa.


Mário Quintana

Todas as ações do homem


Explorando o exemplo do canto, Agostinho mostra como o ato de cantar revela o que ocorre em “todas as ações do homem” (Confissões XI):


“Vou entoar uma canção que conheço. Antes de iniciar, minha expectativa se estende totalmente, mas quando começar, tanto quanto eu tiver tirado da expectativa, também minha memória se estende, e a vida desta minha ação se distende na memória (em razão do que cantei) e na expectativa (em razão do que cantarei). Minha atenção também está ali, presente, pela qual o que era futuro é arrastado para tornar-se passado. E quanto mais isso acontecer e acontecer, a expectativa será abreviada e a memória será prolongada, até que toda a expectativa seja consumida, quando toda a ação terminada houver transitado para a memória. E o que ocorre na canção toda também ocorre nas suas partículas singulares, e o que ocorre nas partículas singulares também ocorre na ação mais longa, da qual talvez aquela canção seja uma partícula, e o mesmo em toda a vida do homem, das quais são partes todas as ações do homem.”

domingo, 28 de outubro de 2012

Percurso

Sendo trem 
não se pode seguir 
a estrada de 
uma borboleta. 
Eliana Mara

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um Dicionário


  1. Abraço: área que circula atlânticos
  2. Alegria: pedacinhos de púrpura num céu que nunca existiu
  3. Alergia: chamado urgente dos sentidos
  4. Amarelo: um curto circuito das cores
  5. Amnésia: toda vez que o amor desaparece
  6. Amor eterno: você nunca vai saber o que eu jamais esquecerei
  7. Anestesia: não é medo nem pressa, é saudade
  8. Azul: quando o olho do homem sentiu sede
  9. Biópsia: quando um grão de areia lê a tua sorte
  10. Bodas de prata: três vezes ao dia, cápsulas
  11. Brancura: é melhor que chegue sem fazer barulhos
  12. Brevidade: morangos ainda frescos
  13. Calúnia: coloca a arma na minha mão e dispara
  14. Cão: tudo em mim que me odeia
  15. Cruz: a melhor função para quatro pregos
  16. Delicadeza: fina caligrafia na história dos encontros
  17. Despedida: digo que volto já, antes de ir
  18. Despertador: a música da vida dispensou o regente
  19. Dia de borboleta: pés que não tocam o chão e música espalhada
  20. Diagnóstico: previsão do futuro que passou
  21. Diamante: susto de cristal
  22. Difamação: quando você falsifica minha identidade
  23. Distância entre nós: fórmula inexata do meu medo e sua fuga
  24. Dor: estremecimento da ponte enquanto atravesso
  25. Dupla-face: movimento de aeroportos
  26. Efervescência: o ritmo natural da minha espera
  27. Ele: versão indiscreta de mim mesma
  28. Entrevista: minhas perguntas me respondem
  29. Envelope: garrafa jogada num mar horizontal
  30. Eureka: do outro lado também é vidro
  31. Expressão: a dor nos amarelos de Van Gogh
  32. Falso enigma: nenhum silêncio está calado
  33. Flores: quando a natureza dá gritos de êxtase
  34. Fuso horário: qualquer hora do dia sem você já anoiteceu
  35. Gnomo: gigante que preferiu ter amigos
  36. Gota: mundo em miniatura
  37. Gramática adversativa: ferramentas da covardia
  38. Impostura: olho o que você é hoje e sei que já vi isso em algum filme
  39. Insistência: plissado regular do tecido
  40. Insônia: trancada pelo lado de fora
  41. Insultos: facas sem sentidos
  42. Intervalo: parei de chorar ou cansei
  43. Invenção do sapateado: a primeira mulher espantando morcegos
  44. Jogo de esconder: produtos do rancor
  45. Limpeza: desaparecimento de trânsitos
  46. Lua: pede carona em todas as estradas
  47. Maquiagem: é melhor adiar esta chuva
  48. Meio amigo: o homem com quem eu durmo nos meus sonhos
  49. Meu oceano: infinitas pessoas mínimas
  50. Músicos quando querem banho: desafinam nas serenatas
  51. Não adianta tentar: as pegadinhas da formiga não descrevem ângulos
  52. Não sabe se me ama: mas freqüenta todas as aulas
  53. Narrativa visual: para quem vê poucos
  54. Nutrição: camada plural de peles
  55. Camafeu: a casa do segredo
  56. Dicionário: o parque de diversões dos armários
  57. O inverso da alfândega: me escolhe para ser seu país e pede meu passaporte
  58. Olhos baixos: manual de despedidas
  59. Orgia: vou à feira das bocas mas só beijo a tua
  60. Paixão: vida útil menor que morangos frescos
  61. Papel de seda: pele das coisas inesperadas
  62. Partitura: as fotos da nossa alegria pronta para ser reproduzida
  63. Pedagogia das folhas: só existe o irrepetível
  64. Pedra: águas mal criadas
  65. Perdão: relembrar-se na história, dormindo
  66. Pés: duplicação em negativo das pegadas
  67. Princesinha: na seqüência do conto, dorme e desperta madrasta
  68. Recorte e colagem: a superfície da figura movimenta a paisagem
  69. Regras de enlouquecer: pés para cima e grama solitária
  70. Reunião: tudo que é vivo está lá fora
  71. Segunda-feira: levei a alegria para o aeroporto
  72. Separação: não sei onde você está nas noites que dormimos juntos
  73. Sorriso: fita adesiva ou ilusão de ótica
  74. Teu medo: para dar velocidade, minha ausência
  75. Frasco: todo um continente em vidro:
  76. Traição: mesmo filtrada, a água é um suco de vidro
  77. Transatlântico: acordo, olho em volta e não acredito
  78. Vermelho: mancha sonora em voz alta
  79. Véspera: um pingo que pretende chover depois
  80. Vida: distrações antes da morte
  81. Vingança: meus pés atados a seus passos
  82. Visita: o susto da minha ausência
  83. Vou morrer, meu bem: aproveita e me abraça
Eliana Mara de Freitas

Rumo



"Às vezes, contudo, são as pequenas atitudes que alteram definitivamente a rota de nossas vidas. Às vezes, são as pequenas escolhas que mais dilaceram o coração."
Antonio Prata