segunda-feira, 22 de novembro de 2010

AUSÊNCIA

corvo

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Flashes e folhas

 
 
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Iluminada!
Alguém disse que eu era assim um dia e como costumo fazer acredito nas pessoas... e quando acredito bom faço acontecer...
Como em todo estalo uma luz sempre se acende e tento mantê-la assim constantemente.
Sim... e exagero nisso a maior parte das vezes e sempre fico feliz por isso. Porque como um farolete preciso pulsar...
Mas como até os grandes faróis se apagam... se cansam... perdem o sentido...
Prossigo nesse momento em busca de mais... assim mais exigente, mais objetiva e conseqüentemente mais incômoda.
Incômoda!
Essa é outra expressão que costumo ouvir e traduzo no meu ouvido de maluca como um elogio, um lembrete para não mudar...
Porque minhas paixões são existenciais assim como meus desejos e reflexões.
Então aspiro muito mais do que as pessoas... busco o que meu ponto de vista enxerga regado por minha hipersensibilidade e percepção.
Jogo um jogo perigoso, porque preciso ser conquistada. Senão fica superficial... e ando impaciente com isso. Prefiro o tudo ou nada.
Acredite... no caso com você é nada.
Por isso, por mais incômodo que isso possa soar, não há por que se importar de verdade. Eu enxergo de forma tortuosa e especial. Assim as coisas sempre vão embora como vieram...
Como o sopro do vento numa folha seca no meio da tarde.

domingo, 24 de outubro de 2010

Grilhões suaves

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nessa coisa de aprisionar
a gente acaba prisioneiro.

Companhia virtual

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num dá pra abraçar

nem cheirar

nem beijar

num dá pra amar

de longe muito tempo

ou… será?

Em todos os sentidos

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Presente.

Presente-objeto.

Presente-tempo.

Presente-presença.

Presente.

Sobre listas

 

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Para burlar a ansiedade cotidiana

e evitar um curto-circuito

faço listas.

Vai além da organização

aos detalhes mais sem noção

tem muito mais a ver

com registrar sonhos

do que controlar a realidade.

Sim,

agora tenho sonhos.

Devo ter reaprendido com você.

Devagar

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Numa vida

que é roda gigante

amadurecer

é a arte

de rodar mais devagar.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Céu voltará para trás

j 

O Professor explica o tempo


“FILHO”, disse, “no seu atual estado você não tem como compreender a eternidade: quando Anodos olhou pela porta da eternidade ele não retornou com mensagem alguma. Mas você pode ter uma idéia dela se disser que tanto o bem quanto o mal, quando plenamente desenvolvidos, se tornam retrospectivos. Não somente este vale, mas todo o passado terreno deles terão sido um Céu para os que são salvos. Não apenas o crepúsculo naquela cidade, mas toda a vida na Terra será vista, então, pelos perdidos, como um Inferno. É isso que os mortais interpretam mal. A respeito de um sofrimento temporário eles dizem: ‘Não há bem-aventurança futura capaz de compensar isso’ – sem saber que o Céu, uma vez alcançado, terá efeito retroativo, tornando em glória até mesmo essa agonia. E quando se trata de algum prazer pecaminoso, dizem: ‘Deixe-me gozar só isso, e assumirei as conseqüências’ – sem ter a mínima noção de como a condenação terá efeito retroativo sobre o seu passado, contaminando todo o prazer trazido pelo pecado. Ambos os processos têm início até mesmo antes da morte. O passado do homem bom começa a modificar-se de forma tal que os seus pecados perdoados e sofrimentos lembrados passam a assumir o gostinho do Céu; o passado do homem mau já se conforma à sua maldade e se enche só de miséria. É por isso que no fim de tudo, quando o sol nascer aqui e o crepúsculo lá embaixo se transformar em trevas, os Abençoados dirão: ‘Jamais vivemos em outro lugar que não fosse o Céu.’ E os Perdidos dirão: ‘Sempre estivemos no Inferno.’ E ambos estarão dizendo a verdade.”
– de The Great Divorce [O Grande Abismo]


Retirada de Um Ano com C. S. Lewis (Editora Ultimato, 2005).

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Horizontes

 

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Símbolos assemelham-se a horizontes.
Horizontes: onde se encontram eles?
Quanto mais deles nos aproximamos, mais fogem de nós.
E, no entanto, cercam-nos atrás, pelos lados, à frente.
São o referencial do nosso caminhar.
Há sempre os horizontes da noite e os horizontes da madrugada...
As esperanças do ato pelo quais os homens criaram a cultura,
presentes no seu próprio fracasso,
são horizontes que nos indicam direções.
E esta é a razão pela qual não podemos entender uma
cultura quando nos detemos
na contemplação dos seus triunfos técnico-práticos.
Porque é justamente no ponto onde ele fracassou
que brota o símbolo,
testemunha das coisas ainda ausentes,
saudade de coisas que ainda não nasceram [...].

Rubem Alves

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Epifania

comp

As pessoas nos surpreendem às vezes.

Vão além do que se acredita.

Aí ocorre uma epifania de verdade...

encontra-se finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora se consegue enxergar a imagem completa.

Mas isso só acontece porque se presta atenção.

Nota-se.

Só quem realmente se importa começa a enxergar.

E vendo onde se está é mas fácil de assumir o controle.

Ta aí uma coisa que nunca busquei, nunca quis de verdade.

Talvez no meu propósito acabe me rendendo essa farpa.

Mas, acredite, nunca se está no controle de verdade.

A chave na maior parte das vezes é confiar, arriscar, jogar no escuro.

Sorver... desconstruir e como fazem os mais corajosos destruir para reconstruir.

sábado, 2 de outubro de 2010

Como a Lua…

luafases

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Lua Adversa, Cecília Meireles

Quero ser compartilhada

 compart

....os momentos até podem ser compartilhados,
cada pessoa nos compreende de uma certa maneira.
Mas, algo aqui em mim, se inquieta,
não quero ser compreendida, ou até aceita.

Quero ser compartilhada.

Algo natural, quase sem querer…
Que venha, e fique ou não, mas que intensamente
me devore.
E me mostre como me penetrar sem me invadir.
Leve, simples…Pólen e não Mel.

trecho de Pólen: http://ritaloureiro.wordpress.com/

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

sábado, 14 de agosto de 2010

A fada da dor

 
O dono da dor sabe o quanto dói.
O outro, compassivo, imagina que dói demais.
O outro, vingativo, deseja que doa muito.
O outro, indiferente, pensa que só nele existe dor.
Ela nem conhece o dono. Não consulta o mapa antes de chegar.
Se a dor existe, se tem alguma face, é uma face branca, olhos arregalados.
A dor é uma face branda.
Um corpo que apenas cumpre o seu trabalho. Sempre adequado, sempre justo.
A dor nunca ataca alguém. A dor apenas realiza seu ofício. Sem tribunal, sem remorsos, sem salário.
A dor é uma fada, muda, inocente. Cega, certamente. E sábia.
Alma transparente, a dor caminha sobre as pedras de fogo. Baila sobre as pedras de fogo.
A dor não se conhece. A dor não sabe de nada.
O dono da dor pode gemer, gritar. A dor não ouve, não se compadece nem se orgulha.
Tem uma tarefa, o dono da dor se contorce, até desmaia.
O dono da dor morre.
E é nesta hora que a dor sai para outra viagem.

Eliana Mara com o título original Oficio

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O verdadeiro amor lança fora o medo

Tenho muitas pessoas dentro de mim. Dentre elas, um bicho enorme, amedrontador, que fala coisas horríveis e sem volta, ruge, grita e arregala os olhos. Coitadinho, morre de medo de ser abandonado, deixado sozinho. Para conseguir o amor garantido, berra ainda mais. Parece que ele vai testando até onde os demais aguentam. Quando ele fala mais alto e está mais presente que as outras pessoas que moram dentro de mim, acabo me parecendo mais com ele. É duro colocá-lo no seu lugar novamente. Muito difícil mesmo. Acho que o nome dele é Medo.
Li certa vez que o oposto do amor é o medo. E não o ódio, como pensamos. O medo afasta, divide, destrói. O ódio é facilmente revertido, pois nele mora a paixão. Quando o Medo aparece, tento alimentá-lo, perguntando: "do que você precisa?". Às vezes ele quer colo, outras vezes ele quer ser dominado e outras ainda apenas ser ouvido. Tenho que alimentá-lo e pedir aos outros o que ele necessita. Quem sabe assim ele se acalma por um tempo. Sim, porque sei que ele está sempre ali. Bom, aí surge outro carinha que mora dentro de mim. Vem surgindo duro, categórico: "de jeito nenhum! Você não precisa de ninguém. Precisa se virar sozinha! Autossuficiência! Ademais, os outros podem deixá-la a ver navios. Não confie em ninguém!" Esse aí, também já sofreu muitas decepções e frustrações. Quer provar a todo tempo que consegue sozinho. É gordo, precisa de alta camada de proteção. Já tomou conta de mim por vários anos. E fiquei literalmente igualzinha a ele. Penso que ele se chama Orgulho.
Enquanto eles se enfrentam numa guerra sem fim, aparece alguém humilde, com a voz branda, suave e sábia. Vem dizendo: "nem todo o conhecimento vem pela razão! Dê ouvidos a ambos, mas escolha com coração o que é certo de fazer. Você consegue e pedir não diminui seus méritos. Mesmo Jesus pediu para que aquele cálice amargo dos humanos fosse afastado de seus lábios." Essa voz me acalma. Gostaria de ser essa pessoa 100% do tempo. Não é homem, nem mulher. Tem forma etérea. Caminha com passos calmos, mas precisos e seguros. Acho que o nome dela é Amor. Acabo pedindo aos outros que me cercam o que o Medo quer e respondo ao Orgulho que conseguimos aguentar o "não". Algumas vezes, não conseguimos o que o Medo queria. O Orgulho sai rindo e se vangloriando, "não falei?". Acredito que isso aconteça porque nem sempre os outros conseguem estar vestidos do Amor, assim como eu mesma não consigo ser Amor 100% do tempo. Mas procuro quem o esteja vestindo hoje, que é quando o Medo precisa. O mais surpreendente: quase sempre consigo o colinho, ou ouvidos compreensivos.
Conhecendo essas pessoas em mim e nos outros, aprendi que a impaciência, a intolerância e as agressões não são mais que o Medo gritando para não ser abandonado, para ser compreendido. Estou aprendendo com o Amor que ele nasce em primeiro lugar para nós mesmos. O jeitão do Medo não leva a lugar algum. Não consegue o que realmente precisamos.
O amor próprio possibilita o amor altruísta, generoso. Conhecendo a nós mesmos e às várias pessoas que nos habitam, temos mais chance de construir relacionamentos saudáveis, vivendo de bem com a vida. 

Sylvia Sabbato

com o título original “Aprender a conviver com os próprios sentimentos é uma arte”

domingo, 1 de agosto de 2010

A origem bíblica dos ditados...

ABRA_CADABRA

“Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”

Elias, quando era alimentado pelos corvos. 

“Quando um não quer dois não brigam”

José explicando mais tarde aos irmãos porque fugiu da mulher de Potifar.

“Depois da tempestade vem a bonança”

Um casal de papagaios na arca de Noé.

“Amigos, amigos, negócios à parte”

Davi a Jônatas antes de ser o rei.

“Nunca diga: dessa água não beberei”

A mulher samaritana ao lado do poço de Jacó.

“Os incomodados que se mudem”

Josué aos povos que habitavam as terras de Canaã.

“Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”

Sansão disse a Dalila, pois ela era grande, era da li lá.

“Quem não ajuda não atrapalha”

Paulo, num acesso de raiva, disse a Barnabé, com respeito a João Marcos.

“Em boca fechada não entra mosquito”

Faraó ao povo egípcio, logo após o anúncio da praga das moscas.

“O que vem de baixo não me atinge”

O gigante Golias a Davi, antes de levar uma pedrada. 

“O mar não está para peixe”

Pedro, Tiago, João no barquinho.

“Falem mal, mas falem de mim”

Bilhete encontrado no bolso de Judas.

“Quem tem pressa come cru”

Jacó a Esaú quando ele troca o guisado pela primogenitura. 

“Ossos do ofício”

Ezequiel, no vale de ossos secos.

 

By Jasiel Botelho

segunda-feira, 26 de julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Dever do Dia


Two_Types_Of_Dream_by_desEXign-full 

Pára de lutar, queixar, acusar,
buscar razões, soluções,
em mil caminhos
que vão chegar ao nada,
como uma porta fechada
ao fim do corredor de cada tentativa.
Pára de buscar alternativas,
procurar explicações.
“Deixa o assunto com o Pai”,
que tem a força e a sabedoria
e confiante vai
fazer o teu “dever do dia”.
Levanta os olhos até onde
o olhar alcança
e vê quanta falta de paz e esperança:
campo branco a esperar por ti.
Começa por aqui. Ao teu redor
há um mundo de oportunidades.

Myrtes Matias

A hora do cansaço

 

au

Não fui convidada para participar da festa do mundo.
Ou cheguei atrasada,
já depois que caíram as maquiagens
e desgrenharam-se os cabelos
e estou eu,
diante do quadro de criaturas de alegria embaçada,
de cabelo feito e a pintura viva na face magoada.
O chão está lavado de risos esparsos:
feitos de suor e taças partidas.
O ar, onde reina o cheiro pesado do torpor alcoólico,
traz, no seu caminhar sem brisa,
os rastros da festa como seu eco.
E estou eu, a festa finda,
com uma alegria corcunda imitando asas

Lívia Natalia

sábado, 17 de julho de 2010

Super-heróis

 

AAA

Todo Don Diego se esconde atrás de um Zorro

Todo Super Homem teme sua kryptonita

Todo poder vem acompanhado de uma grande responsabilidade

Todo  Demolidor tenta enxergar além de seus próprios olhos

Todo X-Men nasceu humano

Toda Mulher Invisível convive no seu Quarteto Fantástico

Toda história em quadrinhos tem fim

Nós, cúmplices, o que …?

sábado, 10 de julho de 2010

O NASCIMENTO DO PRAZER (trecho)

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.

Clarice Lispector

Não quero ser o último a comer-te


Não quero ser o último a comer-te.

Se em tempo não ousei, agora é tarde.

Nem sopra a flama antiga nem beber-te

aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,

de desejar-te tanto e sem alarde,

fome que não sofria padecer-te

assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala

que por teu corpo e alma ainda resvala,

e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema

que fizesse de toda a nossa vida

um chamejante, universal poema.

Drummond

terça-feira, 22 de junho de 2010

Felicidade

 

Felicidade é caminho e consequência.

Sabotagem

 

muro

Território ocupado pelo inimigo – eis o que é o mundo.

O cristianismo é a história de como o Rei da Justiça desembarcou

disfarçado e está chamando-nos para tomar parte

numa grande campanha de sabotagem.

C S Lewis

Tudo mentira

Às vezes se apossa de nós um estranho complexo

que nos faz olhar para pessoas diferentes como inferiores.

Essa é a mentira mais cômica em que alguém já acreditou.

Sobre batalhas

Trave a batalha de ser você para sempre,

porque sempre será a maior batalha

que terá de travar e a única que valerá à pena.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Reunião solene

Como um só homem na Porta das Águas

homens mulheres outros que podiam entender em voz alta a Lei

desde o raiar da manhã até o meio-dia

num lugar mais alto abriu o Livro louvor ao Eterno amém! amém!

rosto em terra lei de Deus interpretando explicando

povo

chorar repartir celebrar

ramos tendas

pátios templo

Porta das Águas

sete dias

livro da Lei

festa

reunião solene.

Sentir

Sinceramente, tudo se inicia no conflito.

E aí se começa a sentir. Sentir a si mesmo.

O pulsar do ser em toda a profusão possível.

Mau humor. Pressão na jugular.

A intensidade sufoca.

Tudo aflora. Tudo se materializa.

Palavras. Gestos. Ações.

O que fazer com o que sente?

Transcender? Flutuar?

Deixar viver ou apenas morrer pouco a pouco assim como nasceu?

Possibilidades.

Conflito. Crescimento.

Entenda isso inteligente!

Saia de você…

Veja o outro.

Viva o outro um pouco.

Porque quando se inspira outros tem que se decidir rapida e acertadamente.

Se se é luz, ser luz firme, sem oscilações.

Deixar acesa a luz mesmo quando não se está em casa.

Deixar aceso o abajur quando se está no porão.

Ser heroi nas “pequenas” decisões e em muitos momentos.

Tudo é importante.

Até e, principalmente, escolher o que sentir.

Equilibrio

 

Qualquer casamento deve se realizar pelas consequencias e não pelas causas.

Para um equilibrio real na relação tem que haver um querer estar de ambas as partes, porque se sabe quem se é e o que se quer.

Ilusão

 

Grilhões suaves podem nos levar a prisões medonhas e quase intermináveis.

quem somos

 

Seu fruto representa você.

Deus conhece os dois: você e o seu fruto.

Aquele olhar

 

Levantei meus olhos lentamente.

Ele aguardava o meu olhar.

Olhamo-nos durante um segundo que poderia ser a eternidade.

Nenhuma palavra.

Nunca mais que isso.

Mas, baixei meu olhar. Respirei fundo e segui o meu caminho.

Olhei para cima.

Ele olhou nos meus olhos.

Olhamo-nos por uma nova eternidade.

Fitei-o. De cabeça erguida segui O caminho.

Solidão

 

Estamos todos interligados e ligados com o Eterno.

Uns mais longe, outros mais perto.

E aí está o segredo do tamanho da nossa solidão.

 

Xô tristeza!

Xô solidão!

No meu coração há festa permanente!

Um rei se curvou quando me cheguei a Ele.

Lágrima

Chorar.

Um choro de desabafo.

Oh! A vida não tem barra de navegação…

Seria mais fácil.

Silencio desnecessário.

Ah! Não seria pleno…

E eu não choraria.

do outro lado

 

há algo do outro lado do mar.

fixe seu olhar e sua esperança nisso.

Ciclo

Pó.

Lama.

Vaso.

Lama.

Pó.

poço

mesmo no fundo do poço há vida.

céu

há um portão aberto para o fiel.

máscara

não quero trocar figurinhas com meus fantasmas.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Por não estarem distraídos

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Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

Um dia discuti com Deus sobre você

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Um dia discuti com Deus sobre você.

Gosto como Deus especialmente me dá respostas.

Mas, às vezes, caio na tentação da aura de cristã piedosa e foco errado.

Interessante as leituras inversas que a gente se vê fazendo.

Ficamos sempre nas ultimas palavras.

Podia ficar aqui divagando como se consegue entender ou não a mensagem começando pelo fim.

Mas pulemos isso.

Vague pelo Oasis deste seu mundo particular, sendo ele miragem ou não...

Tem a ver com o seu propósito.

Lute sua guerra... quando suas marcas forem suficientes...

Te vejo de novo na presença do Rei.

Cortar o tempo

tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.


Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.


Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

(Drummond)

PORQUE O ANO PARA MIM COMEÇA HOJE.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

 

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aqui Está minha Vida

 

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Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

 

Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

 

Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

 

Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.


Cecília Meireles

Boca

 

boc

Boca: nunca te beijarei.
Boca de outro que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.


Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.


Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.

 

Drummond

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Reinvenção

liberdad A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcança...
Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.
Só - na trevas fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

Cecilia Meireles

Mudança


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Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!

 

Clarice Lispector

sábado, 24 de abril de 2010

Espiritualidade

 

A prática de orar em silêncio, de aquietar a alma para meditar na Palavra e de escrever ressonâncias depois que alguém compartilha percepções espirituais, me deixou boquiaberto. Eu acreditava em preces barulhentas. Achava que Deus gostava de decibéis exagerados.

(…)

Passei a desejar uma espiritualidade de afetos. Abandonei o esforço de fazer de minhas orações uma técnica de colocar Deus em movimento. Destruí o altar que eu erguera para acionar o divino. Reaprendi que orar é inspirar ausências. Sem muitos barulhos, colocar a alma numa quietude parecida com a que o sumo sacerdote experimentava ao entrar no Santo dos Santos. Noto que os cultos, as missas, se tornaram agitados. Pergunto-me se o ritmo alucinante das músicas e das danças não são fugas. Na agitação, evita-se o confronto com a interioridade e, consequentemente, com Deus. Agora, só agora, começo a intuir o significado de orar no quarto fechado, em secreto.
Uma oração que não inclua o mundo inteiro apequena Deus e mostra o grau de individualismo de quem ora. Não consigo mais entender Deus como um deus tribal que faz chover e não deixa que gafanhotos destruam plantações. O mundo geme e entendo que as preces precisam ser situadas em relação a todos, inclusive africanos exilados, haitianos sem teto, europeus desiludidos com o materialismo e brasileiros inundados em periferias urbanas. Deus não dispensa suas bênçãos prioritariamente sobre os quem têm olhos azuis. Ele não começa seus castigos pelos mais miseráveis; não abandona milhões à míngua para vitalizar ajuntamentos que enriquecem evangelistas ávidos por fama e riqueza.

(…)

Desejo vivenciar a minha espiritualidade em atos devocionais. Pretendo transformar-me em um adorador que faz do “seguimento” de Jesus a melhor expressão de sua piedade. Liturgias centradas em emocionalismos desmerecem a tradição profética dos dois Testamentos. O melhor culto é defender a justiça. Deus não gosta de ajuntamentos com liturgias autocentradas, que só buscam canalizar o seu favor. O verdadeiro culto disponibiliza pessoas para cuidar de órfãos e de viúvas -- esta é a verdadeira religião, segundo Tiago. Qualquer verticalização do louvor só tem sentido se promover a verticalização do serviço. Espiritualidade é reconhecer Deus no rosto do pobre, do nu, do faminto e do desterrado; tudo o mais é individualismo travestido de piedade.
Anseio por reuniões que celebrem a graça, sem paranoias espirituais, sem alguém tentando infundir culpa para descansar no inescrutável amor de Deus. Quero participar de comunidades leves, sem as afetações próprias do glamour do mundo, onde os sorrisos sejam gratos e os abraços, sinceros. O caminhar de Jesus não combina com lugares espetaculosos. Viver os valores do seu reino prescinde de holofotes”.

 

Ricardo Gondim

Tabela periódica

 

“O conjunto dos costumes de um povo é sempre marcado por um estilo: eles formam sistemas. Estou convencido de estes sistemas não são ilimitadas e que as sociedades humanas, como os indivíduos – e seus jogos, seus sonhos ou seus delírios – não criam jamais de maneira absoluta, mas se limitam a escolher certas combinações em um repertório ideal que seria possível reconstituir. Fazendo o inventário de todos os costumes observados de todos os imaginados nos mitos, evocados nos jogos infantis e adultos, os sonhos dos indivíduos sãos ou doentes e as condutas patológicas, seria possível chegar a constituir uma espécie de tabela periódica como a dos elementos químicos, em que todos os costumes reais ou simplesmente possíveis apareceriam agrupados em famílias e onde nós precisaríamos apenas reconhecer os costumes que as sociedades efetivamente adotaram”

in TRISTES TRÓPICOS, 1955, P.203

Longe de Deus?

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Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos com a informação? Os ciclos do céu em vinte séculos nos levaram para mais longe de Deus e mais próximo do pó.

T. S. Eliot

quinta-feira, 22 de abril de 2010

amigos são olhos

 

My beautiful picture 

Amizade é algo sem interesses, sem terceiras intenções…

Amigos são como nossos olhos…

se movem juntos,

choram juntos

vêem  coisas juntos

estão sempre juntos

(são tão juntos

que dá um trabalho danado

pra se verem frente a frente)

É como se fossem apenas um.

(Nara/Luciane)