quarta-feira, 25 de agosto de 2010

sábado, 14 de agosto de 2010

A fada da dor

 
O dono da dor sabe o quanto dói.
O outro, compassivo, imagina que dói demais.
O outro, vingativo, deseja que doa muito.
O outro, indiferente, pensa que só nele existe dor.
Ela nem conhece o dono. Não consulta o mapa antes de chegar.
Se a dor existe, se tem alguma face, é uma face branca, olhos arregalados.
A dor é uma face branda.
Um corpo que apenas cumpre o seu trabalho. Sempre adequado, sempre justo.
A dor nunca ataca alguém. A dor apenas realiza seu ofício. Sem tribunal, sem remorsos, sem salário.
A dor é uma fada, muda, inocente. Cega, certamente. E sábia.
Alma transparente, a dor caminha sobre as pedras de fogo. Baila sobre as pedras de fogo.
A dor não se conhece. A dor não sabe de nada.
O dono da dor pode gemer, gritar. A dor não ouve, não se compadece nem se orgulha.
Tem uma tarefa, o dono da dor se contorce, até desmaia.
O dono da dor morre.
E é nesta hora que a dor sai para outra viagem.

Eliana Mara com o título original Oficio

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O verdadeiro amor lança fora o medo

Tenho muitas pessoas dentro de mim. Dentre elas, um bicho enorme, amedrontador, que fala coisas horríveis e sem volta, ruge, grita e arregala os olhos. Coitadinho, morre de medo de ser abandonado, deixado sozinho. Para conseguir o amor garantido, berra ainda mais. Parece que ele vai testando até onde os demais aguentam. Quando ele fala mais alto e está mais presente que as outras pessoas que moram dentro de mim, acabo me parecendo mais com ele. É duro colocá-lo no seu lugar novamente. Muito difícil mesmo. Acho que o nome dele é Medo.
Li certa vez que o oposto do amor é o medo. E não o ódio, como pensamos. O medo afasta, divide, destrói. O ódio é facilmente revertido, pois nele mora a paixão. Quando o Medo aparece, tento alimentá-lo, perguntando: "do que você precisa?". Às vezes ele quer colo, outras vezes ele quer ser dominado e outras ainda apenas ser ouvido. Tenho que alimentá-lo e pedir aos outros o que ele necessita. Quem sabe assim ele se acalma por um tempo. Sim, porque sei que ele está sempre ali. Bom, aí surge outro carinha que mora dentro de mim. Vem surgindo duro, categórico: "de jeito nenhum! Você não precisa de ninguém. Precisa se virar sozinha! Autossuficiência! Ademais, os outros podem deixá-la a ver navios. Não confie em ninguém!" Esse aí, também já sofreu muitas decepções e frustrações. Quer provar a todo tempo que consegue sozinho. É gordo, precisa de alta camada de proteção. Já tomou conta de mim por vários anos. E fiquei literalmente igualzinha a ele. Penso que ele se chama Orgulho.
Enquanto eles se enfrentam numa guerra sem fim, aparece alguém humilde, com a voz branda, suave e sábia. Vem dizendo: "nem todo o conhecimento vem pela razão! Dê ouvidos a ambos, mas escolha com coração o que é certo de fazer. Você consegue e pedir não diminui seus méritos. Mesmo Jesus pediu para que aquele cálice amargo dos humanos fosse afastado de seus lábios." Essa voz me acalma. Gostaria de ser essa pessoa 100% do tempo. Não é homem, nem mulher. Tem forma etérea. Caminha com passos calmos, mas precisos e seguros. Acho que o nome dela é Amor. Acabo pedindo aos outros que me cercam o que o Medo quer e respondo ao Orgulho que conseguimos aguentar o "não". Algumas vezes, não conseguimos o que o Medo queria. O Orgulho sai rindo e se vangloriando, "não falei?". Acredito que isso aconteça porque nem sempre os outros conseguem estar vestidos do Amor, assim como eu mesma não consigo ser Amor 100% do tempo. Mas procuro quem o esteja vestindo hoje, que é quando o Medo precisa. O mais surpreendente: quase sempre consigo o colinho, ou ouvidos compreensivos.
Conhecendo essas pessoas em mim e nos outros, aprendi que a impaciência, a intolerância e as agressões não são mais que o Medo gritando para não ser abandonado, para ser compreendido. Estou aprendendo com o Amor que ele nasce em primeiro lugar para nós mesmos. O jeitão do Medo não leva a lugar algum. Não consegue o que realmente precisamos.
O amor próprio possibilita o amor altruísta, generoso. Conhecendo a nós mesmos e às várias pessoas que nos habitam, temos mais chance de construir relacionamentos saudáveis, vivendo de bem com a vida. 

Sylvia Sabbato

com o título original “Aprender a conviver com os próprios sentimentos é uma arte”

domingo, 1 de agosto de 2010

A origem bíblica dos ditados...

ABRA_CADABRA

“Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”

Elias, quando era alimentado pelos corvos. 

“Quando um não quer dois não brigam”

José explicando mais tarde aos irmãos porque fugiu da mulher de Potifar.

“Depois da tempestade vem a bonança”

Um casal de papagaios na arca de Noé.

“Amigos, amigos, negócios à parte”

Davi a Jônatas antes de ser o rei.

“Nunca diga: dessa água não beberei”

A mulher samaritana ao lado do poço de Jacó.

“Os incomodados que se mudem”

Josué aos povos que habitavam as terras de Canaã.

“Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”

Sansão disse a Dalila, pois ela era grande, era da li lá.

“Quem não ajuda não atrapalha”

Paulo, num acesso de raiva, disse a Barnabé, com respeito a João Marcos.

“Em boca fechada não entra mosquito”

Faraó ao povo egípcio, logo após o anúncio da praga das moscas.

“O que vem de baixo não me atinge”

O gigante Golias a Davi, antes de levar uma pedrada. 

“O mar não está para peixe”

Pedro, Tiago, João no barquinho.

“Falem mal, mas falem de mim”

Bilhete encontrado no bolso de Judas.

“Quem tem pressa come cru”

Jacó a Esaú quando ele troca o guisado pela primogenitura. 

“Ossos do ofício”

Ezequiel, no vale de ossos secos.

 

By Jasiel Botelho