sábado, 14 de agosto de 2010

A fada da dor

 
O dono da dor sabe o quanto dói.
O outro, compassivo, imagina que dói demais.
O outro, vingativo, deseja que doa muito.
O outro, indiferente, pensa que só nele existe dor.
Ela nem conhece o dono. Não consulta o mapa antes de chegar.
Se a dor existe, se tem alguma face, é uma face branca, olhos arregalados.
A dor é uma face branda.
Um corpo que apenas cumpre o seu trabalho. Sempre adequado, sempre justo.
A dor nunca ataca alguém. A dor apenas realiza seu ofício. Sem tribunal, sem remorsos, sem salário.
A dor é uma fada, muda, inocente. Cega, certamente. E sábia.
Alma transparente, a dor caminha sobre as pedras de fogo. Baila sobre as pedras de fogo.
A dor não se conhece. A dor não sabe de nada.
O dono da dor pode gemer, gritar. A dor não ouve, não se compadece nem se orgulha.
Tem uma tarefa, o dono da dor se contorce, até desmaia.
O dono da dor morre.
E é nesta hora que a dor sai para outra viagem.

Eliana Mara com o título original Oficio

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