segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Confissão de Natal




Senhor, tão absorvida estive em cuidar daqueles que me entregaste, que me esqueci de preparar o Teu presente de aniversário. Agora aqui estou, as mãos vazias, calosidades e manchas, indeléveis algumas. O sofrimento dos que colocaste em meu caminho atingiram-me, marcaram-me, fizeram-me sofrer. Dei-lhes meu tempo, minha força, meus bens e meu amor.

Mas agora, Senhor, quando o mundo Te vê pequeno e dependente no presépio de Belém, sinto também um grande desejo de trazer-Te um presente. Sinto-me como no tempo de criança, quando mamãe e papai faziam anos: triste e alegre. Alegre por ser dia de festa, triste porque nada possuía além de algumas moedas de metal no pequeno cofre de madeira, e, então, eu não podia transformar em algo concreto o meu amor.

E agora, no Teu dia, Senhor, nem mesmo resta o velho cofre. Apenas esta vontade de Te agradar, de dizer Te amo, de pedir perdão pelas mãos vazias. 

Se ao menos pudesse trazer-Te todos os sorrisos que vi nascer; todas as lágrimas que desapareceram de rostos cansados porque ouviram falar de Ti; todas as flores que recebi porque estava executando uma ordem Tua...

Mas não. Estas pequenas preciosidades transformaram-se em saudade e gratidão. E sentimentos não podem ser traduzidos em caixa de presente, amarrada em cordões coloridos.

Por isso é que, no Teu dia de festa, duas mãos cansadas se erguem para pedir que se encha de novas bênçãos e que lhes dês novas oportunidades de servir, pois que, nada tendo para oferecer-Te, quero sair outra vez proclamando Teu poder e Tua bondade.

Quero ser aquela que leva o recado, que executa tarefas humildes que procura retribuir com trabalho servil a bênção de ser admitida entre aqueles que servem a um Deus. 

 Myrtes Mathias

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Confusão



Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança
vivem na casa do Presente, quando deviam estar 
- como seria lógico - uma na casa do Passado 
e a outra na casa do Futuro.

- Mas e o Presente, seu moço?

-Ah, esse nunca está em casa.


Mário Quintana

Todas as ações do homem


Explorando o exemplo do canto, Agostinho mostra como o ato de cantar revela o que ocorre em “todas as ações do homem” (Confissões XI):


“Vou entoar uma canção que conheço. Antes de iniciar, minha expectativa se estende totalmente, mas quando começar, tanto quanto eu tiver tirado da expectativa, também minha memória se estende, e a vida desta minha ação se distende na memória (em razão do que cantei) e na expectativa (em razão do que cantarei). Minha atenção também está ali, presente, pela qual o que era futuro é arrastado para tornar-se passado. E quanto mais isso acontecer e acontecer, a expectativa será abreviada e a memória será prolongada, até que toda a expectativa seja consumida, quando toda a ação terminada houver transitado para a memória. E o que ocorre na canção toda também ocorre nas suas partículas singulares, e o que ocorre nas partículas singulares também ocorre na ação mais longa, da qual talvez aquela canção seja uma partícula, e o mesmo em toda a vida do homem, das quais são partes todas as ações do homem.”

domingo, 28 de outubro de 2012

Percurso

Sendo trem 
não se pode seguir 
a estrada de 
uma borboleta. 
Eliana Mara

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um Dicionário


  1. Abraço: área que circula atlânticos
  2. Alegria: pedacinhos de púrpura num céu que nunca existiu
  3. Alergia: chamado urgente dos sentidos
  4. Amarelo: um curto circuito das cores
  5. Amnésia: toda vez que o amor desaparece
  6. Amor eterno: você nunca vai saber o que eu jamais esquecerei
  7. Anestesia: não é medo nem pressa, é saudade
  8. Azul: quando o olho do homem sentiu sede
  9. Biópsia: quando um grão de areia lê a tua sorte
  10. Bodas de prata: três vezes ao dia, cápsulas
  11. Brancura: é melhor que chegue sem fazer barulhos
  12. Brevidade: morangos ainda frescos
  13. Calúnia: coloca a arma na minha mão e dispara
  14. Cão: tudo em mim que me odeia
  15. Cruz: a melhor função para quatro pregos
  16. Delicadeza: fina caligrafia na história dos encontros
  17. Despedida: digo que volto já, antes de ir
  18. Despertador: a música da vida dispensou o regente
  19. Dia de borboleta: pés que não tocam o chão e música espalhada
  20. Diagnóstico: previsão do futuro que passou
  21. Diamante: susto de cristal
  22. Difamação: quando você falsifica minha identidade
  23. Distância entre nós: fórmula inexata do meu medo e sua fuga
  24. Dor: estremecimento da ponte enquanto atravesso
  25. Dupla-face: movimento de aeroportos
  26. Efervescência: o ritmo natural da minha espera
  27. Ele: versão indiscreta de mim mesma
  28. Entrevista: minhas perguntas me respondem
  29. Envelope: garrafa jogada num mar horizontal
  30. Eureka: do outro lado também é vidro
  31. Expressão: a dor nos amarelos de Van Gogh
  32. Falso enigma: nenhum silêncio está calado
  33. Flores: quando a natureza dá gritos de êxtase
  34. Fuso horário: qualquer hora do dia sem você já anoiteceu
  35. Gnomo: gigante que preferiu ter amigos
  36. Gota: mundo em miniatura
  37. Gramática adversativa: ferramentas da covardia
  38. Impostura: olho o que você é hoje e sei que já vi isso em algum filme
  39. Insistência: plissado regular do tecido
  40. Insônia: trancada pelo lado de fora
  41. Insultos: facas sem sentidos
  42. Intervalo: parei de chorar ou cansei
  43. Invenção do sapateado: a primeira mulher espantando morcegos
  44. Jogo de esconder: produtos do rancor
  45. Limpeza: desaparecimento de trânsitos
  46. Lua: pede carona em todas as estradas
  47. Maquiagem: é melhor adiar esta chuva
  48. Meio amigo: o homem com quem eu durmo nos meus sonhos
  49. Meu oceano: infinitas pessoas mínimas
  50. Músicos quando querem banho: desafinam nas serenatas
  51. Não adianta tentar: as pegadinhas da formiga não descrevem ângulos
  52. Não sabe se me ama: mas freqüenta todas as aulas
  53. Narrativa visual: para quem vê poucos
  54. Nutrição: camada plural de peles
  55. Camafeu: a casa do segredo
  56. Dicionário: o parque de diversões dos armários
  57. O inverso da alfândega: me escolhe para ser seu país e pede meu passaporte
  58. Olhos baixos: manual de despedidas
  59. Orgia: vou à feira das bocas mas só beijo a tua
  60. Paixão: vida útil menor que morangos frescos
  61. Papel de seda: pele das coisas inesperadas
  62. Partitura: as fotos da nossa alegria pronta para ser reproduzida
  63. Pedagogia das folhas: só existe o irrepetível
  64. Pedra: águas mal criadas
  65. Perdão: relembrar-se na história, dormindo
  66. Pés: duplicação em negativo das pegadas
  67. Princesinha: na seqüência do conto, dorme e desperta madrasta
  68. Recorte e colagem: a superfície da figura movimenta a paisagem
  69. Regras de enlouquecer: pés para cima e grama solitária
  70. Reunião: tudo que é vivo está lá fora
  71. Segunda-feira: levei a alegria para o aeroporto
  72. Separação: não sei onde você está nas noites que dormimos juntos
  73. Sorriso: fita adesiva ou ilusão de ótica
  74. Teu medo: para dar velocidade, minha ausência
  75. Frasco: todo um continente em vidro:
  76. Traição: mesmo filtrada, a água é um suco de vidro
  77. Transatlântico: acordo, olho em volta e não acredito
  78. Vermelho: mancha sonora em voz alta
  79. Véspera: um pingo que pretende chover depois
  80. Vida: distrações antes da morte
  81. Vingança: meus pés atados a seus passos
  82. Visita: o susto da minha ausência
  83. Vou morrer, meu bem: aproveita e me abraça
Eliana Mara de Freitas

Rumo



"Às vezes, contudo, são as pequenas atitudes que alteram definitivamente a rota de nossas vidas. Às vezes, são as pequenas escolhas que mais dilaceram o coração."
Antonio Prata

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pois bem...



...Esqueça as saídas mágicas no último minuto. 
Ninguém virá lhe resgatar milagrosamente de suas próprias escolhas. 
Acredite ou não, a isso se chama responsabilidade.

sábado, 22 de setembro de 2012

Verdade



A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade

Eu, gracinha


O lugar onde moro é estranho, as pessoas são estranhas, as situações que vivo são estranhas. Eu não, sou uma gracinha! Karoline Vital

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Inspiração



Calcule quanto tempo e criatividade você despendeu nos últimos meses,
 tentando descobrir sínteses originais no trabalho. 
Não apenas executar a tarefa, 
mas descobrir algo nela que o entusiasme, 
que o leve adiante, pode ser tão trabalhoso e difícil! 
Mas sem isso, como seguir?

sábado, 25 de agosto de 2012

Para fazer uma lista



Na década de sessenta, Paulo Mendes Campos escreveu uma crônica “sobre coisas abomináveis” na vida moderna que ele considerava “crimes contra a criatura humana”. Revendo o ano que passou, eu também consigo lembrar de uma porção de coisas abomináveis.
Televangelista prometendo bênção para quem mandar dinheiro para seu programa; culto que demora a acabar devido a trezentas homenagens; testemunho de milagre mirabolante que nem Deus acredita; profecia que promete casamento; megaevento internacional que promete abalar com o mundo; e-mails com teorias conspiratórias sobre a nova lei que fecha igrejas e prende pastores; promessa de que todas as carteiras do trabalho serão preenchidas; estudo bíblico provando que o vinho das bodas de Caná era suco de uva; seminário para pedir perdão pelos crimes da guerra do Paraguai; os crimes brasileiros contra o Paraguai; o silêncio dos evangélicos sobre a adolescente presa em cela masculina; as penitenciárias brasileiras; e-mail anônimo; cartão de visita de pastor com trinta e oito títulos; guerra; sermão em que o texto serviu de pretexto; o brilho nos olhos dos pastores quando almoçam com políticos; piadas racistas; violência doméstica; saber que um presbítero citou o apóstolo Paulo para oprimir mulher e filhos; evangelista que previu o dia da volta de Cristo; “breakfast with the president” para abençoar as tropas que invadiram o Iraque; igreja que não respeita a lei do silêncio; usar o maquiavelismo de que os fins justificam os meios para encobrir desmandos religiosos; desonestidades aceitas para que o Evangelho seja anunciado; pastor que amaldiçoa os que saem de sua comunidade; música apaixonada que substituiu o namorado por Jesus; pastor com terno de grife prometendo que Deus enriquecerá o servente da construção; leilão de ofertas, tipo: “Deus me revelou que 10 vão contribuir com mil reais”; cantor que passa mais tempo pregando do que cantando; gracejos de pastor sem mensagem; grito de quem imagina mandar em Deus; paletó e gravata em Teresina; bateria fora do ritmo;“voçê” grafado assim, com cedilha; reunião secreta na padaria para dividir a igreja; desfalque na fundação social; notícia de mais um político evangélico envolvido com corrupção; alpinismo social gospel.
Mas nem tudo é abominável; existem coisas louváveis, plenas de alegria:
A Volta do Filho Pródigo, de Henri Nouwen; a revista Enfoque, sem nenhuma pedrada pelo que escrevi; acolher crianças especiais; paz de criança dormindo; a ternura de mãos se encontrando; mutirão para construir asilo de velhos; amigo abraçando outro enquanto oram de joelhos; oferta para projetos missionários na África; terminar de ler O Evangelho Maltrapilho; o filme “A Vila”; hinos da Harpa ou do Cantor Cristão; crianças encenando o Presépio; sermão expositivo; “causos” do folclore evangélico; cultos rurais iluminados com lampião; congresso Geração 90 da Mocidade para Cristo; congressos da Vinde; topar com irmãos na fé em lugares imprevisíveis (e não se envergonhar); pizzaria lotada de jovens cristãos no domingo; batismo em lagoa; olhos marejados do noivo enquanto a noiva entra na igreja; o pai-nosso de mãos dadas; novo convertido; louvores em ritmo de samba; o dízimo da viúva; flanelógrafo; cantata de Páscoa, seminário sobre justiça social; coleta seletiva de lixo; igreja com reunião dos AA’s; político assistindo a culto até o fim; piano de cauda; esboço do sermão projetado em telão; Santa Ceia; culto na linguagem dos sinais para surdos; Bíblia em Braile; joelhos dobrados; mãos suadas antes da pregação; passeata contra a violência do Rio de Janeiro; sonhar voando; dormir cansado e não sonhar nada; voltar para o Brasil; lembrar o primeiro hino que ouviu; missionários que trabalham com os índios; conferência missionária; amigo que presenteia CD; apagar notícias ruins da internet antes de abri-las; rir dos tropeções; ler a Bíblia para um doente querido; poder afirmar no velório: “Contudo, eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra”; parar com a lista das coisas louváveis sabendo que elas excedem as abomináveis.

Ricardo Gondim

domingo, 5 de agosto de 2012

Viver não é para amadores


Todos vivem em constante tensão. A vida é complexa, muitas vezes, paradoxal e plena de riscos. A vida não é um passeio despretensioso. Cada pessoa é responsável e ao mesmo tempo vítima das circunstâncias. Cada estrada que se escolhe conduz a novas bifurcações e cada decisão gera desdobramentos mil. Os poetas, os místicos e os filósofos já perceberam que se precisa de siso e responsabilidade na imensa e difícil aventura de viver. Cada instante é inédito e exige o máximo de cuidado.
Viver não é para amadores. Cada opção produz ondas, iguais às da pedra jogada no meio de uma lagoa. As decisões, semelhantes a círculos concêntricos, espalham-se e as marolas se dissolvem nas margens do lago. Na vida, porém, as conseqüências dos atos se alastram para sempre. Cada pessoa deve lembrar-se de que não tem o controle das conseqüências de suas escolhas, que repercutirão eternamente. Viver não é para amadores. Os pais infl uenciam os fi lhos, os fi lhos formam famílias e tanto as bondades como as maldades se reproduzirão. Crianças sofrem seqüelas por terem crescido em famílias disfuncionais, muitas oprimidas por mães castradoras, que não conseguem criar os filhos. Se cada pai soubesse a importância da paternidade na formação emocional e nos valores éticos de seus fi lhos, menos pacientes procurariam as clínicas psiquiátricas e menos penitenciárias seriam construídas.
Viver não é para amadores. Sem saber organizar os desejos, a vida pode se perder com projetos irrelevantes; sem dar sentido ao cotidiano, a vida patina no tédio. São necessários princípios, verdades e valores para direcionar a vida. As pressões do dia-a-dia destroem aqueles que não têm força para fazer escolhas responsáveis. Viver não é para amadores. Os indivíduos precisam uns dos outros, mas se arranham mutuamente. O próximo tanto pode ser fonte de alegria, como de frustrações. Quem tenta isolar-se para não passar por decepções, empobrece. Não é possível resguardar-se do amigo sem perder o viço. Só viverá bem quem não considerar o outro um inferno. O céu pertence aos que aprenderam a relevar as inadequações alheias. O longânimo tem chance de ser feliz.
Viver não é para amadores. A existência é imprevisível. Não há como se controlar a história ou situar os eventos futuros em qualquer lógica. Por mais que os religiosos prometam, os filósofos pretendam e os sociólogos estudem, a história não obedece aos trilhos do destino. De repente, sempre de repente, chega o improvável e nessa hora, precisa-se de coragem para não desistir. A viagem rumo ao futuro requer brios. Viver não é para amadores. Equilibrar o lazer e dever, ócio e trabalho não é fácil. Muito lazer produz tédio e muito dever, estresse. A preguiça acompanha o ócio e a fadiga o trabalho. O sábio avisou que há tempo para todas as coisas: “tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou, tempo de cozer e tempo de rasgar, tempo de juntar e tempo de espalhar o que se juntou”. Portanto, só vive quem sabe transitar entre esses eventos tão contraditórios.
Viver não é para amadores. Depressão e riso, alegria e tristeza formam a história de cada um. Quem foge da tristeza acaba neurótico e vive em negação, sempre à procura de um mundo de ilusões. Quem não sabe rir termina inclemente; em busca de gente para povoar o seu purgatório.
Viver não é para amadores. O sofrimento do mundo é grande demais para ser evitado. Contudo, é preciso ter alegria para celebrar aniversários, casamentos e formaturas. Os que se blindam contra a dor universal podem se tornar cínicos; por outro lado, os que se martirizam, arriscam-se a serem inconseqüentes.
Viver não é para amadores. O tempo passa velozmente, carregando tudo e todos. A humanidade se angustia com a areia da ampulheta e com o pêndulo do relógio que não cessam de avisar que os dias do calendário são escassos. Alguns não percebem que jogam a vida fora com melindres bobos e com vaidades e megalomanias onipotentes. Eternizar cada instante se constitui o segredo da felicidade.
Viver, definitivamente, não é para amadores, portanto, “se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida.” Que ninguém se atreva a querer levar a vida só.

Ricardo Gondim

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Cantando a indiferença





No Brasil fiz uma análise textual de algumas músicas cristãs. Em quase todas o eu é soberano e central. Aqui procurei por metáforas. O que cantamos em nossos cultos, como nos vemos e como vemos ao Senhor? O que encontrei não me surpreendeu. O Senhor é doce, suave, meigo, uma brisa, um furacão, um abraço, um calor que me inunda, o abrigo que me protege, a mão que me ampara, um grande coração, aquele que me faz voar, aquele que chora por mim, que tem ciúmes de mim. Ele é também glória, majestade e beleza. É o Cordeiro com muito mais frequência do que é o Leão… Nenhum problema. O nosso Deus é mesmo tudo isto. Mas é também muito mais. Eu, por minha vez, sou frágil, estou abatido, magoado, ferido e cansado; sou um nada, preciso de proteção; estou sempre à beira do pecado, estou chorando, meu canto é um eterno lamento.
Vemos aqui um quadro triste no evangelicalismo atual. Embora verdadeiras, as imagens de um Deus extremamente meigo e dos seres humanos fragilizados, a quem ele serve, não nos contam toda a história. Produzem um estado mental angustiado e egocêntrico. Enquanto olho pra minha fragilidade, não ajudo o próximo. Enquanto fraco, nada vejo além do meu umbigo. Envolvido em meu romance celestial, esqueço meu destino terreal.
.....
As metáforas de hoje, no entanto, produzem uma passividade total. Enquanto canto àquele que me ama, sou uma árvore plantada no lugar de minha conveniência esperando que a brisa me refresque e o abrigo me proteja. Minha missão inexiste.


Braulia Ribeiro em "Metáforas de uma vida passiva"

terça-feira, 26 de junho de 2012

Eu, modo de usar

Pode invadir ou chegar com delicadeza,
mas não tão devagar que me faça dormir.
Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor mas ... permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza.
Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir,
mas não conte piadas e nem seja preconceituoso,
não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude.
Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sózinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada.
( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).
Seja mais forte que eu e menos altruísta!
Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços,
gosto de pernas e muito de pescoço.
Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.
Leia, escolha seus próprios livros, releia-os.
Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.
Seja um pouco caseiro e um pouco da vida,
não de boate que isto é coisa de gente triste.
Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ...
Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa,
apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ...
(...)
Me conte seus segredos...
Me faça massagem nas costas
Não fume,
Beba,
Chore,
eleja algumas contravenções.
Me rapte!
se nada disso funcionar...
Experimente me amar!

Martha Medeiros

Travesseiro



"Estar com pessoas amigas é algo tão íntimo e agradável
quanto dormir no próprio travesseiro.
Podemos encontrar gente bacana em toda parte,
igual a dormir no melhor dos hotéis.
Mas, só aqueles que você ama, como um velho travesseiro,
é que te deixam à vontade."

Karoline Vital

Saudade a gente mata

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Casos inacabados

Tem gente que vai ficando na nossa vida. A gente conhece, se envolve, termina, mas não coloca um ponto final. De alguma forma a coisa segue. Às vezes, na forma de um saudosismo cheio de desejo, uma intimidade que fica a milímetros de virar sexo. Em outras, como sexo mesmo, refeição completa que mata a fome mas não satisfaz, e ainda pode causar dor de barriga. Eu chamo isso de caso inacabado.

Minha impressão é que todo mundo tem ou teve alguma coisa assim na vida. Talvez seja inevitável, uma vez que nem todas as relações terminam com o total esgotamento emocional. Na maior parte das vezes, temos dúvida, temos afeto, temos tesão, mas as coisas, ainda assim, acabam. Porque o outro não quer. Porque os santos não batem. Porque uma terceira pessoa aparece e tumultua tudo. Mas o encerramento do namoro (ou equivalente) não elimina os sentimentos. Eles continuam lá, e podem se tornar um caso inacabado.
Isso às vezes acontece por fraqueza ou comodismo. Você sabe que não está mais apaixonado, mas a pessoa está lá, dando sopa, e você está carente... Fica fácil telefonar e fazer um reatamento provisório. Se os dois estiverem na mesma vibração – ou seja, desapaixonados – menos mal. Mas em geral não é isso.
Quase sempre nesse tipo de arranjo tem alguém apaixonado (ou pelo menos, dedicado) e outro alguém que está menos aí. A relação fica desigual. De um lado, há uma pessoa cheia de esperança no presente. Do outro, alguém com o corpo aqui, mas a cabeça no futuro, esperando, espiando, a fim de algo melhor.
Claro, não é preciso ser psicólogo para perceber que mesmo nesses arranjos desequilibrados a pessoa que não ama também está enredada. De alguma forma ela não consegue sair. Pode ser que apenas um dos dois faça gestos apaixonados e se mostre vulnerável, mas continua havendo dois na relação. Talvez a pessoa mais frágil seja, afinal, a mais forte nesse tipo de caso. Pelo menos ela sabe o que está fazendo ali.
A minha observação sugere, porém, que boa parte dos casos inacabados não contém sexo. A pessoa sai da sua cama, sai até da sua vida, mas continua ocupando um espaço na sua cabeça. Você pode apenas sonhar com ela, pode falar por telefone uma vez por mês ou trocar emails todos os dias. De alguma forma, a história não acabou. A castidade existe, mas ela é apenas aparente. Na vida emocional, dentro de nós, a pessoa ainda ocupa um espaço erótico e afetivo inconfessável.
Esse tipo de caso inacabado é horrível. Ele atrapalha a evolução da vida. Com uma pendência dessas, a gente não avança. Você encontra gente legal, mas não se vincula porque sua cabeça está presa lá atrás. Ou você se envolve, mas esconde do novo amor uma área secreta na qual só cabem você e o caso inacabado. A coisa vira uma traição subjetiva. Não tem sexo, não tem aperto de mãos no escuro, mas tem uma intimidade tão densa que exclui o outro – e emocionalmente pode ser mais séria que uma trepada. Ainda que seja mera fantasia.
A rigor, a gente pode entrar numa dessas com gente que nunca namorou. Basta às vezes o convívio, uma transa, meia transa, e lá está você, fisgado por alguém com quem nunca dormiu – mas de quem, subjetivamente, não consegue se esquivar. Telefona, cerca, convida. Estabelece com a pessoa uma relação que gira em torno do desejo insatisfeito, do afeto não retribuído. Vira um caso inacabado que nunca teve início, mas que, nem por isso, chega ao fim. Um saco.
Se tudo isso parece muito sério, relaxe. Há outro tipo de caso inacabado que não dói. São aquelas pessoas de quem você vai gostar a vida toda, cuja simples visão é capaz de causar felicidade. Elas existem. Você não vai largar a mulher que ama para correr atrás de uma figura dessas, mas, cada vez que ela aparecer, vai causar em você uma insurgência incontrolável de ternura, de saudades, de carinho. O desejo, que já foi imenso, envelheceu num barril de carvalho e virou outra coisa, meio budista. Você olha, você lembra, você poderia querer – mas já não quer. Você fica feliz por ela, e esse sentimento é uma delícia.
Para encerrar, uma observação: o alcance e a duração dos casos inacabados dependem do momento da vida. Se você está solto por aí, vira presa fácil desse tipo de envolvimento. Acontece muito quando a gente é jovem, também se repete quando a gente é mais velho e está desvinculado. Mas um grande amor, em qualquer idade, tende a por as coisas no lugar. Uma relação intensa, duradoura, faz com que a gente coloque em perspectiva esses enroscos. Eles não são para a vida inteira, eles não determinam a nossa vida. Quem faz diferença é quem nos aceita e quem nós recebemos em nossa vida. O que faz diferença é o que fica. O resto passa, que nem um porre feliz ou uma ressaca dolorosa.
(Ivan Martins)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Bem vinda vida nova !

“Quando saio pra jantar com alguém, 32.

Quando danço até 5 horas da manhã, 21.

Quando beijo alguém pela primeira vez, 14.

Quando bebo cerveja com os amigos, num papo sério, 40.

Quando falo besteira e dou risada até explodir, 17.

Quando brinco com alguma criança, 9.

Quando dá vontade de ficar em casa fazendo nada, 53.

Idades, tenho todas e nenhuma.”

(Fabiana Rainha)

domingo, 13 de maio de 2012

Sabotagem



O problema é que a ela só interessam os todo errados
os chapados, os casados, estragados.
Os muito velhos, os muito jovens,
os bons de mais para ela, os pouca coisa.

A ela só lhe despertam os olhos
aqueles que ela não pode ter.
os que não a querem, os que a querem demais.
As outras filosofias,
os outros paises,
os outras vidas, as vidas que ela não pode viver.


Ah, se ao menos ela visse
os bonzinhos, os certinhos.
De barba feita
e sapato lustrado.


Maris Morgenstern

Contingências



Desejo é amor em estado bruto.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Revirando o baú


É mais que sentimento... amor é escolha, compromisso.
Não como obrigação, mas como dádiva.
É isso quando digo que amo-te. Muito.

(conversas de amor - 2 )

Conversas de amor(e)


(A): vc me faz sentir vivo
(B): aff...sou sua alma eh?
(A): algo parecido
(B): vou cobrar por cada segundo respirado ...rsrs
(A): vc tem sido uma peça muito importante do meu baralho... sério mesmo...
sempre está presente, e a cada presente, um marco...
(B): carta importante no baralho...peça eh se fosse xadrez (rsrs)... p q vc gosta de mim?
ou melhor, vc diz q me ama,  entao ... p q vc me ama?
(A): eu te amo pq sei e tenho certeza de que o mundo sem vc ñ seria o mesmo...
(B): q mundo?
(A): mundo? Minha vida!
(B): entao...vc me ama pelo q eu represento. E se eu nao te amasse...vc me amaria?
(A): agora sim... amaria...e te conquistaria
(B): antes nao?
(A): antes ñ
(B): entao vc me ama p q eu te amo?
(A): nao... e + que isso... tá vendo, quer me ensinar até a amar...kkkkkkkkkkkkkkkkk