quinta-feira, 26 de julho de 2012

Cantando a indiferença





No Brasil fiz uma análise textual de algumas músicas cristãs. Em quase todas o eu é soberano e central. Aqui procurei por metáforas. O que cantamos em nossos cultos, como nos vemos e como vemos ao Senhor? O que encontrei não me surpreendeu. O Senhor é doce, suave, meigo, uma brisa, um furacão, um abraço, um calor que me inunda, o abrigo que me protege, a mão que me ampara, um grande coração, aquele que me faz voar, aquele que chora por mim, que tem ciúmes de mim. Ele é também glória, majestade e beleza. É o Cordeiro com muito mais frequência do que é o Leão… Nenhum problema. O nosso Deus é mesmo tudo isto. Mas é também muito mais. Eu, por minha vez, sou frágil, estou abatido, magoado, ferido e cansado; sou um nada, preciso de proteção; estou sempre à beira do pecado, estou chorando, meu canto é um eterno lamento.
Vemos aqui um quadro triste no evangelicalismo atual. Embora verdadeiras, as imagens de um Deus extremamente meigo e dos seres humanos fragilizados, a quem ele serve, não nos contam toda a história. Produzem um estado mental angustiado e egocêntrico. Enquanto olho pra minha fragilidade, não ajudo o próximo. Enquanto fraco, nada vejo além do meu umbigo. Envolvido em meu romance celestial, esqueço meu destino terreal.
.....
As metáforas de hoje, no entanto, produzem uma passividade total. Enquanto canto àquele que me ama, sou uma árvore plantada no lugar de minha conveniência esperando que a brisa me refresque e o abrigo me proteja. Minha missão inexiste.


Braulia Ribeiro em "Metáforas de uma vida passiva"

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