sábado, 25 de agosto de 2012

Para fazer uma lista



Na década de sessenta, Paulo Mendes Campos escreveu uma crônica “sobre coisas abomináveis” na vida moderna que ele considerava “crimes contra a criatura humana”. Revendo o ano que passou, eu também consigo lembrar de uma porção de coisas abomináveis.
Televangelista prometendo bênção para quem mandar dinheiro para seu programa; culto que demora a acabar devido a trezentas homenagens; testemunho de milagre mirabolante que nem Deus acredita; profecia que promete casamento; megaevento internacional que promete abalar com o mundo; e-mails com teorias conspiratórias sobre a nova lei que fecha igrejas e prende pastores; promessa de que todas as carteiras do trabalho serão preenchidas; estudo bíblico provando que o vinho das bodas de Caná era suco de uva; seminário para pedir perdão pelos crimes da guerra do Paraguai; os crimes brasileiros contra o Paraguai; o silêncio dos evangélicos sobre a adolescente presa em cela masculina; as penitenciárias brasileiras; e-mail anônimo; cartão de visita de pastor com trinta e oito títulos; guerra; sermão em que o texto serviu de pretexto; o brilho nos olhos dos pastores quando almoçam com políticos; piadas racistas; violência doméstica; saber que um presbítero citou o apóstolo Paulo para oprimir mulher e filhos; evangelista que previu o dia da volta de Cristo; “breakfast with the president” para abençoar as tropas que invadiram o Iraque; igreja que não respeita a lei do silêncio; usar o maquiavelismo de que os fins justificam os meios para encobrir desmandos religiosos; desonestidades aceitas para que o Evangelho seja anunciado; pastor que amaldiçoa os que saem de sua comunidade; música apaixonada que substituiu o namorado por Jesus; pastor com terno de grife prometendo que Deus enriquecerá o servente da construção; leilão de ofertas, tipo: “Deus me revelou que 10 vão contribuir com mil reais”; cantor que passa mais tempo pregando do que cantando; gracejos de pastor sem mensagem; grito de quem imagina mandar em Deus; paletó e gravata em Teresina; bateria fora do ritmo;“voçê” grafado assim, com cedilha; reunião secreta na padaria para dividir a igreja; desfalque na fundação social; notícia de mais um político evangélico envolvido com corrupção; alpinismo social gospel.
Mas nem tudo é abominável; existem coisas louváveis, plenas de alegria:
A Volta do Filho Pródigo, de Henri Nouwen; a revista Enfoque, sem nenhuma pedrada pelo que escrevi; acolher crianças especiais; paz de criança dormindo; a ternura de mãos se encontrando; mutirão para construir asilo de velhos; amigo abraçando outro enquanto oram de joelhos; oferta para projetos missionários na África; terminar de ler O Evangelho Maltrapilho; o filme “A Vila”; hinos da Harpa ou do Cantor Cristão; crianças encenando o Presépio; sermão expositivo; “causos” do folclore evangélico; cultos rurais iluminados com lampião; congresso Geração 90 da Mocidade para Cristo; congressos da Vinde; topar com irmãos na fé em lugares imprevisíveis (e não se envergonhar); pizzaria lotada de jovens cristãos no domingo; batismo em lagoa; olhos marejados do noivo enquanto a noiva entra na igreja; o pai-nosso de mãos dadas; novo convertido; louvores em ritmo de samba; o dízimo da viúva; flanelógrafo; cantata de Páscoa, seminário sobre justiça social; coleta seletiva de lixo; igreja com reunião dos AA’s; político assistindo a culto até o fim; piano de cauda; esboço do sermão projetado em telão; Santa Ceia; culto na linguagem dos sinais para surdos; Bíblia em Braile; joelhos dobrados; mãos suadas antes da pregação; passeata contra a violência do Rio de Janeiro; sonhar voando; dormir cansado e não sonhar nada; voltar para o Brasil; lembrar o primeiro hino que ouviu; missionários que trabalham com os índios; conferência missionária; amigo que presenteia CD; apagar notícias ruins da internet antes de abri-las; rir dos tropeções; ler a Bíblia para um doente querido; poder afirmar no velório: “Contudo, eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra”; parar com a lista das coisas louváveis sabendo que elas excedem as abomináveis.

Ricardo Gondim

domingo, 5 de agosto de 2012

Viver não é para amadores


Todos vivem em constante tensão. A vida é complexa, muitas vezes, paradoxal e plena de riscos. A vida não é um passeio despretensioso. Cada pessoa é responsável e ao mesmo tempo vítima das circunstâncias. Cada estrada que se escolhe conduz a novas bifurcações e cada decisão gera desdobramentos mil. Os poetas, os místicos e os filósofos já perceberam que se precisa de siso e responsabilidade na imensa e difícil aventura de viver. Cada instante é inédito e exige o máximo de cuidado.
Viver não é para amadores. Cada opção produz ondas, iguais às da pedra jogada no meio de uma lagoa. As decisões, semelhantes a círculos concêntricos, espalham-se e as marolas se dissolvem nas margens do lago. Na vida, porém, as conseqüências dos atos se alastram para sempre. Cada pessoa deve lembrar-se de que não tem o controle das conseqüências de suas escolhas, que repercutirão eternamente. Viver não é para amadores. Os pais infl uenciam os fi lhos, os fi lhos formam famílias e tanto as bondades como as maldades se reproduzirão. Crianças sofrem seqüelas por terem crescido em famílias disfuncionais, muitas oprimidas por mães castradoras, que não conseguem criar os filhos. Se cada pai soubesse a importância da paternidade na formação emocional e nos valores éticos de seus fi lhos, menos pacientes procurariam as clínicas psiquiátricas e menos penitenciárias seriam construídas.
Viver não é para amadores. Sem saber organizar os desejos, a vida pode se perder com projetos irrelevantes; sem dar sentido ao cotidiano, a vida patina no tédio. São necessários princípios, verdades e valores para direcionar a vida. As pressões do dia-a-dia destroem aqueles que não têm força para fazer escolhas responsáveis. Viver não é para amadores. Os indivíduos precisam uns dos outros, mas se arranham mutuamente. O próximo tanto pode ser fonte de alegria, como de frustrações. Quem tenta isolar-se para não passar por decepções, empobrece. Não é possível resguardar-se do amigo sem perder o viço. Só viverá bem quem não considerar o outro um inferno. O céu pertence aos que aprenderam a relevar as inadequações alheias. O longânimo tem chance de ser feliz.
Viver não é para amadores. A existência é imprevisível. Não há como se controlar a história ou situar os eventos futuros em qualquer lógica. Por mais que os religiosos prometam, os filósofos pretendam e os sociólogos estudem, a história não obedece aos trilhos do destino. De repente, sempre de repente, chega o improvável e nessa hora, precisa-se de coragem para não desistir. A viagem rumo ao futuro requer brios. Viver não é para amadores. Equilibrar o lazer e dever, ócio e trabalho não é fácil. Muito lazer produz tédio e muito dever, estresse. A preguiça acompanha o ócio e a fadiga o trabalho. O sábio avisou que há tempo para todas as coisas: “tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou, tempo de cozer e tempo de rasgar, tempo de juntar e tempo de espalhar o que se juntou”. Portanto, só vive quem sabe transitar entre esses eventos tão contraditórios.
Viver não é para amadores. Depressão e riso, alegria e tristeza formam a história de cada um. Quem foge da tristeza acaba neurótico e vive em negação, sempre à procura de um mundo de ilusões. Quem não sabe rir termina inclemente; em busca de gente para povoar o seu purgatório.
Viver não é para amadores. O sofrimento do mundo é grande demais para ser evitado. Contudo, é preciso ter alegria para celebrar aniversários, casamentos e formaturas. Os que se blindam contra a dor universal podem se tornar cínicos; por outro lado, os que se martirizam, arriscam-se a serem inconseqüentes.
Viver não é para amadores. O tempo passa velozmente, carregando tudo e todos. A humanidade se angustia com a areia da ampulheta e com o pêndulo do relógio que não cessam de avisar que os dias do calendário são escassos. Alguns não percebem que jogam a vida fora com melindres bobos e com vaidades e megalomanias onipotentes. Eternizar cada instante se constitui o segredo da felicidade.
Viver, definitivamente, não é para amadores, portanto, “se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida.” Que ninguém se atreva a querer levar a vida só.

Ricardo Gondim